terça-feira, 23 de outubro de 2018

Uma crônica de ninguém sobre nada


Falar de educação no Brasil deixou de ser “chover no molhado”; agora, é soprar no seco. Isso porque não se trata mais de repetir as mesmas estratégias ou de se obter os mesmo resultados. A verdade atual é insistir em acreditar. É sobre crer que Rubem Braga é ninguém e que fala sobre nada. Não existem o padeiro, o taxista, o pavão, a borboleta, o tuim e o Zig. Ninguém fez nada.
Um das campeãs de aparições nas escolas brasileiras, em aulas de português, a fadigada foto crônica foi imposta à turma de 9º ano – e sua heterogeneidade etária, dos 14 aos 18 anos. Na lousa, as orientações, o passo a passo. Muitas dúvidas, perguntas repetitivas, olhares desinteressados e a fatídica retórica: “Pra que isso, professora?”
– Para contextualizar! Tomar posse das vivências de Braga!
Silêncio. Expressões de “nada entendi” e “ainda não sei pra quê?”. Leituras em grupos, individuais, pausadas para efetuar buscas nos dicionários, checar redes sociais.
– O que é um tuim, professora?
– Um pequeno pássaro!
– Zig é uma pessoa?
– Não! É o cão de Rubem Braga.
– O padeiro fazia os pães e entregava também? – Essa exigiu mais tempo da professora!
Ao final da aula, os alunos ainda não estavam convencidos da necessidade da atividade. A professora também já não mais cria em ninguém. Até que uma luz ao fim do túnel surgiu:
Fessora, posso fazer um rap da crônica do cara? – ela se levantou sorrindo, descaradamente, queria mesmo mostrar a satisfação, que estava contente! E não conteve a ansiedade! Seria sua realização – que nem era verdadeiramente esperada.
– Se liga, fessora!
“Um passeio no zoo parece inofensivo,
Mas a treta na cabeça é um trampo intensivo!
Papo reto, sem neurose, olha a vacilação:
O amor tem as asas coloridas do pavão!
Não tem luxo, não tem dor,
Vagabundo também ama, dá licença, seu doutor!”
A turma aplaudiu e vibrou com o colega! A professora descruzou os braços e acompanhou.
– Muito legal, Enzo! Mas as cores do pavão estão nas penas da calda. É só trocar!
– Qual é, fessora! Rap não tem correção! É improviso! Se não cola, a mente apaga.
– Você precisa anotar suas composições! Pode gravá-las, algum dia!
– Esse bagulho de escrever estraga a rima, ela passa do ponto, fessora!
O sinal indicou que a aula acabara. Enzo e quase todos os seus colegas cataram seus materiais e bateram em retirada, rapidamente.
Enquanto a professora organizava os livros e cadernos e muitas folhas em sua bolsa, uma última aluna se aproxima e pede para tirar uma “selfie” com ela.
– Ah! Já sei! Você escolheu a “Aula de inglês”!?
– O quê, prof? – a menina não conhecia a crônica de Braga que tinha o protagonismo de uma professora.
– “Is this na elephant?” – a professor sorriu – A pergunta que a professora de inglês fez, na crônica. Não leu esta? A foto não é para sua foto crônica?
– Não, prof! É pra postar no Instagram.
– Ah! Sim... Tudo bem! Deixa eu arrumar meu cabelo...
Após alguns cliques, correções de postura, alguns filtros testados, até encontrar a melhor imagem, pronto!
– Que legenda você colocou? – perguntou despretensiosamente a professora.
– “Tenho vivido uma parte de minha vida no meio de livros, conheço livros, lido com livros, sou capaz de distinguir um livro a primeira vista no meio de quaisquer outros objetos, sejam eles garrafas, tijolos ou cerejas maduras – sejam quais forem.” – disse a garota, já quase à porta da sala.
– Você leu! Sorrindo, respondeu para a menina.
– Não, prof. Peguei na internet. – respondeu a garota olhando inocentemente para sua professora – curte lá depois, prof. – e saiu.
O oásis era uma miragem. Ao menos foi isso que a docente acreditou.
– Ninguém fez nada. Será que sabem quem é Rubem Braga? Duvido!
Ela saiu, com o celular em mãos, já acessando seu “Insta” – iria curtir a foto e tecer um comentário carinhoso; tão aprazível quanto Zig livrando-se de uma ninhada de gatinhos.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Esta é uma história de Jair Inácio Gomes


A Brasília amarela, sucateada, estacionou. Um cidadão, ainda segurando o volante gasto, esticou o pescoço para fora da janela.
– Em que direção fica Bonito?
A pergunta por si só já seria motivo de piada, em qualquer lugar do Brasil; menos em Sombrio, a pacata cidade catarinense. E como desgraça pouca é bobagem, lá estavam Karlos e Milton, interrompendo a prosa cotidiana, na calçada do tradicional boteco “Par lamento”. Aqui vale uma pausa para apresentar os sócios proprietários do ambiente mais conhecido do pedaço; mas longe de ser o mais admirado ou frequentado – na verdade, a clientela era basicamente composta por amigos e agregados. O nome da espelunca havia surgido naturalmente, com a voz do povo. É que todos os dias ali estavam os dois, atentos ao noticiário, lamentando o que quer que fosse apresentado; nunca os dois, claro, a única concordância de ambos era em tocar o negócio, obter lucros, do mais... Dito isso, Karlos se levantou.
– Pela esquerda e em frente, companheiro!
– Só se você quiser chegar à Venezuela! – retrucou Milton, levantando-se e abotoando seu paletó (Sim! Ele trabalhava, como gostava de classificar, a caráter tradicional!).
– Isso! Vá pela direita, pague pedágios, enriqueça as privatizações. Francamente, Milton, sua capacidade de se vender é fascista!
– E você quer que ele vá pelo atalho que tem mais roubos contabilizados que a quilometragem até o destino? Eu é que me espanto com sua incapacidade...
– Meu nome é Jair Inácio Gomes. Vou tomar um café! – Com egresso do motorista do veículo, a conversa foi interrompida.
– O senhor é político? Nome composto tá em livro ou em lápide! – Karlos não perdia uma oportunidade de ironizar.
– Jair veio de meu pai, militar da reserva; Inácio, de meu avô materno, operário aposentado por invalidez; Gomes de minha mãe.
– E o sobrenome de seu pai? Cadê, rapaz? – Com desaprovação, indagou Milton.
Minha mãe vivia como lhe convinha. Criou-se à custa de meu avô; mas ganhou liberdade sob o rumo de meu pai. E nessas idas e vindas, batizou-me com o nome de papai; mas, submeteu-se à vontade de vovô.
– Aqui seu café! – Karlos já não olhava o forasteiro nos olhos, com igualdade.
– Quanto devo?
– É por conta... Se for pela esquerda, fica pela cortesia; se for pela direita, economiza para o “quinto”.
– Como assim, Karlos? E com o prejuízo eu arco?
– Diga o preço! – Já com a chave da Brasília rodando pelo dedo médio.
Não deu tempo de cobrá-lo. Não foi nem possível escolher uma direção. Ao olhar para o caminho, “Cadê a Brasília? Roubaram!”
Foi assim que esse cidadão brasileiro fez morada em Sombrio. Constituiu família. Criou os filhos. Sempre os lembrando de que seu destino era Bonito, mas que não seguiria viagem sem seu veículo – que nem podia! Ao menos a espelunca ganhou novos frequentadores – assíduos!

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O confortável túmulo do crente

Flagrei-me pensando em eufemismo. Não qualquer exemplo dessa figura de linguagem que nos ajuda a dar aquelas “noticias que chegam rápido” – a notícia ruim! O que me prendeu foi o convite para velório. Parece paradoxal (eis outra figura!). Já que é mais “normal” um convite ser para comemorações, festas!? Pois bem... Pensava em avisos de velório, fica melhor a expressão. Na verdade, ia além: refletia sobre o momento, sobre o velório. Aliás, costume esse quase tão antigo quanto o próprio ser humano. Li na Internet que pesquisadores descobriram cemitérios estimados em 60000 a.C., apesar de a necessidade de “esconder” os corpos embaixo da terra, ou mesmo de pedras, tinha um sentido diferente do atual: corpos em putrefação atraíam animais. Sendo assim, essa era uma maneira de se proteger dos predadores. E é exatamente nesse ponto que me indagava, no que se tornaram os velórios, ou melhor, como nós o entendemos hoje.
Antiteticamente ao velório, tudo começou ao assistir a uma pregação do saudoso Padre Léo. Ele, cômico e nevrálgico, proseava sobre uma viúva em um velório e o comportamento estereotipado dela e dos “convidados” presentes. Lamúrias com hora marcada, preces e vigílias bem organizadas. O padre, então, avisa sem eufemismo: “Oh! Meu irmão. Oh! Minha irmã! Cê vai morrer! Talvez, hoje! Todas as pessoas que você ama você vai perder! Todas! E só tem um ser nesse mundo que matou a morte... Chama-se Nosso Senhor Jesus Cristo! Se você não levar as pessoas que você ama até Ele, você vai viver na morte, no túmulo!” E conclui com sabedoria: “A pior morte não é aquele que começa quando a vida acaba! A pior morte é quando nós já vivemos num túmulo!” E o sacerdote alerta: hoje, muitos dos crentes vivem em túmulos. São frios, fechados, egoístas, vivem com as mãos juntas, mas olhando apenas para cima, indiferentes!
Assim, vagando nos eufemismos, parei em uma encruzilhada. Seria o amor a hipérbole que nos falta, o exagero de vida de que precisamos? Porém, ouvindo aqui e ali os crentes, de que amor falamos?, que amor procuramos? O amor a Deus ou o amor de Deus?! Ah! Sim! Faz muita diferença! O amor de Deus todos temos. É do amor a Ele que necessitamos! Viver esse amor e suas consequências, seus prazeres,suas intenções. E este que nos mantêm vivos. 
Então, metaforicamente, estamos “putrefando-nos” e atraindo animimais carniceiros, predadores de nossas almas – ao mesmo tempo em que afastamos aqueles que estão vivos, e que se veem obrigados a lembrar-se de nos uma vez por ano, em nosso dia de finado aniversário. Que ironia!

A Fazenda Onde Ninguém Sabe Onde É - Histórias para Sophia dormir

Lari, a lagartixa
Jurandir, o jacaré
&
Cacilda, a cobra

Lá na Fazenda Onde Ninguém Sabe Onde É...

Havia uma lagartixa que queria ser jacaré!
Todos os dias, ela corria para a beira da lagoa e ficava o dia inteiro conversando com o Jurandir, o maior de todos os jacarés daquela lagoa. Até que certo dia ela fez a seguinte pergunta ao amigão!
- Seu Jurandir, o senhor acha que eu posso ser um jacaré?
- HAHAHA...
Ele rolava de rir.
- Não ria, seu Jurandir! Estou falando sério! Não acha que eu também posso ser um jacaré?! Olha para mim... Tenho patinhas como o senhor. Tenho também um rabo bem pontudo, igual ao seu, minha boca é chatinha e cumpridinha, igualzinha a sua... só me faltam os dentes!
- Não é por isso que será um jacaré, Lari!
- E por que não? - Perguntou cruzando as patinhas contra o peito e com expressão de desapontamento.
- Ora, ora, minha amiga! Somos bichos diferentes, animais distintos. Cada um tem suas características, seus modos, seus costumes, sua vida!
- Quer dizer, então, que eu não posso querer ter outra vida? Sou obrigada a ser isso que me dizem para sempre? - Já estava irritada a pequena lagartixa!
Jurandir, apesar de gigante e muito forte, e temido por quase todos os animais que frequentavam a lagoa para beber água ou para tomar banho, era muito calmo, e não se assustou com o ímpeto da pequena amiguinha.
- Lari, como você iria fazer para viver conosco? Nós passamos o dia inteiro na água, pouco saímos... Você sabe nadar?
- Não sei nadar, mas posso aprender! - Ela não desistia da ideia de ser um jacaré!
Jurandir, vendo que não convenceria a pequena réptil, propôs um teste a ela.
- Pois bem, Lari! Vamos fazer o seguinte acordo: se você conseguir viver comigo e todos os outros jacarés da lagoa, por um dia inteiro e uma noite inteira, será aceita como um jacaré, e poderá viver aqui. Até ganhará outro nome, um nome de jacaré. Será Jacinta!
Imediatamente, a pequena e teimosa lagartixa aceitou.
- Quando posso começar?
Jurandir deu uma grande gargalhada, com aquela boca enorme. O som de sua risada foi tão alto que assustou todos os pássaros que por ali estavam. Foi uma revoada!
- Comece agora, Lari! Ou já posso chamar de Jacinta? - Rindo e se afastando da margem da lagoa.
- Você não tá acreditando em mim, né?! Você é um jacaré muito abusado! Mas eu vou passar por esse teste!
Lari não pensou muito... pulou na lagoa, mesmo sem saber nadar. A sorte dela é que era tão leve, que nem afundou! Ficou boiando na superfície. E batia as patinhas o mais rápido que podia, para acompanhar o Jurandir. Mas não conseguiu. Quando percebeu, já estava no meio da lagoa, e não via mais o amigão.
- Jurandiiiiiir! Amigão! - Nenhuma resposta!
Apesar desta primeira dificuldade, a pequena e corajosa lagartixa não pensou em desistir. Ela queria muito ser um jacaré! Porém, a situação começou a complicar quando ao seu lado apareceu uma cobra. Não era qualquer cobra! Era a Cacilda! A maior e mais gulosa cobra que viva naquela lagoa.
Lari teve muito medo, naquele momento. Ela sabia que a Cacilda comia qualquer bicho que coubesse em sua boca - e a boca daquela cobra era maior que Lari, da cabeça à ponta do rabo!
- Bom dia, Dona Cacilda! - Tentando disfarçar o medo, a lagartixa cumprimentou a cobra e começou a deslizar pela água, em direção à margem da lagoa.
- Onde vai com tanta pressa, pequena lagartixa?! Fique um pouco mais... podemos conversar um pouco!
- Jacinta é o meu nome. E eu sou um jacaré!
- HIHIHI! A enorme cobra ria e rodopiada em volta da lagartixa que se achava um jacaré!
- Não ria, Dona Cacilda! Por acaso eu contei alguma piada? - Nesse momento, Lari já estava sem medo, e com muita raiva da cobra, que caçoava dela.
- E você sabe que gosto tem a carne de jacaré, Senhorita Jacinta? - Cacilda nadou em direção à pequena e frágil lagartixa, perguntando com ironia.
Lari não resistiu ao gigantesco medo, e implorou, gritando o mais alto que podia, que seu amigão voltasse.
-Jurandiiiiiir! Socorro!
Ela batia as pequeninas patinhas o mais rápido que podia, mas a cobra era muito mais ágil e veloz dentro da água. A pequena lagartixa se lembrou que já havia encontrado a cobra em outra ocasião, e que havia conseguido fugir. Mas, isso foi fora da lagoa, em terra firme, lá a lagartixa tinha vantagem, além de muito veloz correndo entre as plantas, podia se esconder em qualquer buraquinho. Na água era diferente! Não era habitat dela!
Quando Lari viu a enorme boca de Cacilda aberta indo em sua direção, apenas fechou os olhos e se encolheu. Esperou alguns segundos, e nada aconteceu... Ao abrir os olhos, viu que Jurandir tinha aparecido, e com apenas um golpe com seu grande rabo jogou a cobra a muito metros, o suficiente para assustá-la e fazê-la fugir para o meio da mata que havia à margens da lagoa.
- Tudo bem, Jacinta? - Disse o amigão, rindo de soluçar!
- Meu nome é Lari! Eu sou uma lagartixa, e quero voltar para minha casa, agora!
- Claro, minha amiguinha! Mas não se esqueça de que pode me visitar todos os dias e que somos amigos, cada um com seu jeito e sua vida! - Agora, já sério e sereno, como sempre, Jurandir levou Lari até a margem, deixou a amiguinha sobre uma pedra e mergulhou de volta para o fundo da lagoa.
A pequena lagartixa voltou para casa. Não estava triste ou decepcionada. Ela entendeu que tinha passado pelo teste.
É claro que ela nunca seria um jacaré.
E o teste não era para isso.
Desde o início, Jurandir queria apenas mostrar para ela que era importante e que tinha vantagens em ser uma lagartixa.
E a Cacilda, até hoje, não entende nada do que aconteceu aquele dia!

Aliança

Ela foi ate a porta,
e jurou nunca mais voltar.
Nunca mais voltou,
nem perto da porta chegou.

Ele a viu indo devagar
até a porta.
Jurou que não ia buscá-la,
e não foi, mesmo!

A porta nunca foi aberta.
Antes de chegar, ela voltou;
Havia olhado nos olhos dele,
e viu seu desespero.

A porta nunca se fechou.
Parado, quente e medroso,
ele a viu voltar,
chorando e implorando melhorar.

Eles se perdoaram.
Suspiraram aliviados.
Voltaram para o lar.
A porta estava trancada, as janelas fechadas,
as luzes apagadas, os telefones desligados,
os alarmes ativados, os bebês...

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Uma espera com contagem regressiva




Imagem relacionada

Há no Brasil o sarcástico mito de que o brasileiro adora uma fila - é só avistar uma que já toma seu lugar e inicia-se a procissão. É bem verdade que essas "organizações coletivas" não são raridades no país tupiniquim, da fila na padaria à de espera para receber um transplante de órgão, estamos todos caminhando, lentamente ou não, em direção a um desejo e/ou uma obrigação. Entretanto, a questão está na prioridade e urgência de nossas necessidades. Quem aguarda por uma doação de órgãos, por exemplo, dorme a corda em uma fila, muitas vezes, sem um final feliz.
Leigamente, uma pessoa pode se perguntar como faltam órgãos para transplantes, no Brasil, com tantas mortes diariamente. Primeiramente, é preciso saber que os potenciais doadores (como são chamados no meio médico) são aqueles vítimas de mortes encefálicas - ou seja, cerebral. Além desse "requisito", é preciso que a família do cidadão autorize o procedimento. Eis os fatos limitadores do ato. Afinal, hoje, o percentual de doadores, em nosso país, é de 15 por milhão (a meta do Ministério da Saúde, para este ano, era atingir 20 por milhão). E o principal motivo para o fracasso é a grande recusa dos familiares, cerca de 43% não autorizam a doação.
Sendo assim, para que esse quadro melhore - e, assim, muitas vidas sejam salvas (um único doador pode atender a até 20 pessoas), é importantíssimo que se conheçam quais as causas da recusa. Pesquisas divulgadas e discutidas pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) apontam três situações: o medo da mutilação do corpo, a dúvida sobre a naturalidade do óbito e o questionamento sobre o destino dos órgãos. Ironicamente, três mitos. Temos uma legislação que regulamenta desde a comprovação do óbito - com exames bem detalhados, até a chegada ao receptor, sendo clara, inclusive, quanto à consulta à família - em busca da autorização. A mutilação, por exemplo, não ocorre, pois, os procedimentos de retiradas são simples e sem marcas visuais externas (além do corpo ser vestido e, não raro, coberto por flores no velório). Já quanto à identidade dos receptores, faz-se necessário o sigilo por questões de segurança e para evitar fraudes.
Destarte, mediante à urgência da questão e de entraves tão simples, visto que se trata de falta de instrução, é emergencial que o Governo, com o apoio da sociedade, atue em prol da solução dessa problemática. É obrigação que se intensifiquem as campanhas midiáticas para esclarecimento e conscientização da população. É preciso, pois, derrubar os mitos que impedem o ato de solidariedade ao próximo. Deve-se, também, investir em preparação adequada a equipes responsáveis pela abordagem à família, para que sejam capazes de sanar dúvidas e orientar sobre o procedimento. Afinal, em um país cristão, fazer jus ao ensinamento bíblico de amar ao próximo como a si mesmo é uma obrigação.
Resultado de imagem para doação de órgãos

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Pregar é fácil; difícil é ser prego!

Há algum tempo que venho matutando se a carpintaria é um dom ou uma Arte (?). Mas, antes mesmo que eu chegasse a uma resposta, não é que surgiu outra opção: seria essa ocupação milenar, honesta e briosamente reconhecida desde José da Galileia, uma simples e pragmática profissão? Ele, porém, não se ocupou apenas em beneficiar a madeira e fixá-la com os pregos, uma tarefa que exige esforço físico e, geralmente, ao ar livre; exerceu também outras funções – além de marido e pai: foi mensageiro da Verdade, guia dos necessitados, segurança aos frágeis e oprimidos. Características que somadas à sua ocupação o aproximam de um bom e fiel proclamador.
Aliás, proclamar, sim, é uma tarefa que, sem dúvida, em sua essência, é um dom, e também uma Arte, e, também, uma profissão. E não é para qualquer um – ou não deveria ser... São necessárias, além do conhecimento da Verdade, as características que o carpinteiro da Galileia possuía e praticava. Talvez, por isso, temos apenas pregadores, profissionais e amadores, a manusear pregos.
Hoje, estou inclinado a afirmar que é apenas uma profissão lucrativa e de status aos amadores. Os pregos, os que são dobrados, visto que pregar vem do latim plicari (dobrar), têm a responsabilidade, a eles incumbida desde o momento em que sustentaram o corpo de Cristo crucificado, de também sustentar o altar, o púlpito, levar a solidariedade, exercer o amor ao próximo, divulgar a Palavra, enfim, serem os operários. Eles, então, estão muito mais próximos ao Proclamador da Galileia que seus martelos, ferramentas que só fazem para afundá-los na madeira, dobrá-los ao seu bem querer. E àquele que entortar, não conseguir furar a madeira? Lá vem o peso da ferramenta para consertá-lo, endireitá-lo, deixá-lo reto.
Falar é fácil, difícil é fazer; faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço; em casa de ferreiro, espeto é de pau! Pregos, martelos, madeira, pregadores, proclamadores, Josés da Galileia, do Egito, da Europa, do Brasil, Jesuítas, ateus, agnósticos, vizinhos, professores, eu, você... Pense nas pessoas, aja com amor.
Imagem: Altar de Adrià, Catalunha, Espanha. C. 1200

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Numa terça à tarde

Sophia me chama
Para ver as flores
Dançando.
Parados, lado a lado.
Alguns segundos
Quietos!
Pai,
Espera mais um pouquinho
Que o vento já vai tocar uma música!
E ainda há
Gente
Que não quer
Filhos e poesia...

terça-feira, 1 de abril de 2014

Nosso Cânone Literário - Realismo

O Realismo/Naturalismo foi uma escola literária de domínio narrativo no fim do século XIX e início do século XX. Apesar de serem um mesmo movimento literário, o Realismo e o Naturalismo têm diferenças já no cerne: enquanto este é marcado, principalmente, pela corrente filosófica e científica do Determinismo; aquele é extremamente Positivista e Socialista.
No Brasil, especificamente, juntos a todo o contexto histórico mundial – II Revolução Industrial, surgimento e/ou fortalecimento do cientificismo (Determinismo e Evolucionismo) e de correntes filosóficas (Positivismo e Socialismo) – somam-se toda a campanha abolicionista já registrada no período anterior e a decadência da Monarquia Brasileira. Isso propicia terreno fértil para os escritores um tanto urbanos e burgueses... É claro, toda definição para um período literário é sempre arriscada, e, tratando-se de um período no qual se encontra José Maria Machado de Assis, com o Realismo é ainda mais melindroso. Até porque Machado de Assis é, sem dúvida, mais criador que criatura em relação ao Movimento. Então, basta ver as características estético-literárias de Machado para se encontrar as do Realismo. Estética que está intrinsecamente ligada ao pensamento do homem da virada do Século XIX para o XX: objetivismo, universalismo, materialismo, antimonarquismo, nacionalismo, determinismo etc.; mas com a genialidade do Bruxo. Enfim, o Realismo foi um movimento social, e como tal, um movimento do cotidiano.



O derradeiro de um apólogo
Então, quando a senhora voltou para casa, desfez-se do lindo vestido sobre a cama, enquanto encobria-se pelo senhor, em luxo e fúria. Este, famigerado verdadeiro dono daquela trama de linhas que encobria tão belo e jovem corpo durante a noite perante às luzes e aos olhares purgatórios, fez vir novo vestido, ainda mais trabalhado e elitizado.
- Você acreditou mesmo que era importante?
- E por que não seria? Não fui ao baile vestindo a senhora?
- E agora me dá lugar no guarda-roupas. O seu destino? Seguir a ordem alfabética descendente que que marca a quase todos? Talvez, pior! Vestir aquela que o ergueu. Servi àquela que seus caminhos abriu...
- E o que te faz acreditar que seu destino será diferente?
- O limite? Qual mais terá poder esse senhor para fazer vir? Quem mais gastará com tal jovem já marcada pela promiscuidade de valores e entrega barata? Sou o que de mais bela ela pode ter; o mais rico que ele pode dar.
- Mas, desfia-se como o mais rústico de algodão.
O dilema que não cessara foi interrompido. O derradeiro vestido, antes vencedor sobre aquela agulha, agora era dado à genitora de ambos: este e aquela.
Ao ver o motivo de sua revolta socialista, a agulha indagou:
- Pois vejo que não agradou por muito tempo e logo voltou, agora sem a mesma serventia.
- Vejo também que triunfo ainda assim sobre ti. Ou não sabes quem irá corrigir-me e preparar-me a outros bailes; mesmo que de menor valência?
A agulha bem que esbravejou e insultou. Mais que uma verdade, aquele derradeiro vestido tinha ainda poder, ele simplesmente nasceu com tal.
Quando voltei para dar o fim ao apólogo aquele mesmo professor, ele me disse:
- Todos os dias encontro com linhas que não valem um agulha. Mas, ainda assim, sobrepõem a estas com facilidade e normalidade.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Nosso Cânone Literário - Romantismo

Jovem Lendo (1776), Jean-Honoré Fragonard

Transposições, substituições e invenções 
O Romantismo foi um movimento - sim, claro! - positivo à nossa literatura; mas, também, negativista. Negativos foram o sentimento religioso e a filosofia espiritualista, contrários ambos ao espírito moderno. Foi negativa, ainda, a exaltação pueril da pátria, encarada como algo portentoso a partir do cenário natural, o que confunde a retidão do juízo. E negativo foi, sobretudo, o indianismo. Por significar o endeusamento de um povo que teve tanta importância em nossa formação quanto portugueses e negros, ainda que se procurou ressaltar como fator decisivo em nossa diferenciação racial e social. Positivo, o nacionalismo dos românticos foi importante para desligar a nossa vida mental da influência portuguesa e nos abrir para outras culturas europeias.

A canção Chega de Saudade foi escrita em meados de 1950, pelos compositores Tom Jobim e Vinícius de Morais, gravada na voz de Elizeth Cardoso acompanhada pelo mestre da Bossa Nova, João Gilberto, no violão. A gravação ficou conhecida como o primeiro registro fonográfico da Bossa Nova, sendo lançada no ano de 1958, no álbum “Canção do Amor Demais” de Elizeth,  recebendo o nome de “batida da bossa nova”.

Um dia romântico
Pela manhã, cheio de forças e pretensões,
não é possível evitar as verdeações de minha terra.
Antes mesmo do queijinho
de leite fresco provar,
quero já em abolições,
ouvir o canário do Tupã cantar.
Vejam que lugar como aqui não há.
Nem lá, nem lá.
Mas, a vida não é só se encantar.
Só cá, só cá?
Socar negros, socar mulheres, socar todos que puderem.
O Governo, que Brasil.
Mas a Ordem e o Progresso não é Igualdade, Fraternidade e Solidariedade.
Vivam os brasis:
do índio americano, do negro africano e do português republicano.
Tarde longa,
de boa prosa com Vieira e Matos Guerra.
Mas, a noite logo chega, e em casa,
ao silêncio do canário e sem o verde da minha flâmula,
recolho-me à insensata solidão do meu pensar.
Lá na frente um Anjo vai me mostrar os morcegos deste quarto
– Salve Augusto!
Meu trevo não tem folhas;
meu trevo nem é da sorte.
Mau me quer, mau me quer, mau me quer.
E se amanhã os sinos dobrarem em minha lembrança?
Ela terá por mim lembranças?
Pena?
Indiferença?
Sou índio, negro e republicano.
Ó minha pátria, mais aguerrida,
pátria amada, Brasil.
Rodrigo Davel, 15 de março de 2013

domingo, 28 de outubro de 2012

Nosso Cânone Literário - Arcadismo


O Barroco foi de suma importância à literatura, nem é preciso dizer que à vida, né?, mas, foi preciso 
surgir o Arcadismo, e este surgiu a priori para combater ao Barroco, para dar equilíbrio ao fazer literário. Afinal, o Barroco nunca deixou de existir.

Casa No Campo - Elis Regina

70 X 7
Os árcades eram, e ainda são, fiéis pessoanos¹ – ao menos no que se referem ao fingimento, ao poeta ser um fingidor. Toda aquela ladainha e cantilena de lócus amoenus, carpe diem e fugere urbem não era mais que burgueses ambiciosos almejando o lugar privilegiado do clero e da nobreza. Assim se constitui o Setecentismo no Brasil, ou pseudonimamente aclamado como Neoclassicismo – uma boa pedida ao paganismo. Por conseguinte, o convencionamento amoroso era isca aos mais inocentes e poéticos – todavia, isso cresceu e veio formar o Romantismo, com toda a sua subjetividade e idealização amorosa, bem árcade, não é? Agora, não é que nos deparamos com pseudo-árcades em campanha política em pleno Século XXI (nativistas políticos, falsos inconfidentes e nacionalistas da mídia). Ainda bem que temos a literatura para nos mostrar quem é quem...
Pois é, os árcades do Século XVIII tinham como bandeira combater o exagero barroco. A partir dos ensinamentos do deus Pã, e da exaltação de Arcádia, com o singelo e belo intuito de harmonizar homem e natureza, uma contradição ao momento histórico vivido pela sociedade contemporânea a eles. Esta que era enojada pelos bucólicos árcades, contrariamente composta, também, por eles. Tudo muito político e fingido(!). Afinal, não se tem notícia de êxodo rural significativo nesse, nem em qualquer outro período posterior por intelectuais ou burguesia. O máximo que se pode afirmar é a idealização intrínseca do homem urbano em manter uma opção de descontaminação urbana – vulgo sítio, chácara, fazenda etc. Quatro séculos depois, pois, os anseios árcades ganham força novamente, com particularidades moderno-virtuais, e repetem o mesmo fingimento e a mesma ambição arcaica: 'convencionamento amoroso VS relacionamento virtual'; 'carpe diem VS redes sociais'; 'lócus amoenus VS shoppings'; e, principalmente, 'harmonia homem e natureza VS barroquismo/rococó²&futilidade moderno-consumista'. Na epiderme da intenção, o que buscam é a ascensão, igualar-se socialmente, talvez trocar de posição. São todos – desculpe-me, leitor, a generalização? É que tenho grande apreço pela hipérbole – Chico’s Mendes³ paraguaios...
Literariamente julgando – com a licença poética pagã árcade – o Arcadismo trouxe o benefício do equilíbrio social. Afinal, o Barroco é lindo, mas não deixa de ser exagerado(!). E teve uma adaptação imediata aos anseios desta colônia, hoje país subdesenvolvido em plena ascensão(?), devido a sua gigantesca extensão campestre e de desigualdade social. Sociologicamente avaliando, os árcades exercem forte influência na ideologia de ONGs, ecologistas e políticos; mas, puro fingimento poético-prosaico: o fugere urbem é prática raríssima, digna de matéria no Fantástico, reportagem especial no Globo Repórter e/ou Profissão Repórter. Assim, também estão movimentos hippies e sociedades alternativas, todos em trabalho, militância e desfrute do meio-urbano. Porém, a forte marca estética realista incorporada pelos árcades do Século XXI enfeia o movimento e traz um tom apelativo desnecessário. Entretanto, preparemo-nos, o Romantismo moderno está saindo do forno com toda sua subjetividade – graças à velocíssima linguagem virtual, à idealização do amor – sempre perfeito e eterno em redes sociais, ao sofrimento amoroso (fruto do distanciamento, já que computadores e similares não dispõem de mecanismos de contato, ainda) e ao ufanismo retratado em imagens e vídeos divulgando os prazeres nacionais. Isso é literatura: a eterna retomada da vida. Salve Tiradentes!

1 - Referência ao poema  Autopsicografia, de Fernando Pessoa;
2 - "Barroco", uma palavra portuguesa que significava "pérola irregular, com altibaixos", passou bem mais tarde a ser utilizada como termo desfavorável para designar certas tendências da arte seiscentista. Hoje, entende-se por estilo barroco uma orientação artística que surgiu em Roma na virada para o século XVII, constituindo até certo ponto uma reação ao artificialismo maneirista do século anterior. O novo estilo estava comprometido com a emoção genuína e, ao mesmo tempo, com a ornamentação vivaz.
O drama humano tornou-se elemento básico na pintura barroca e era em geral encenado com gestos teatrais muitíssimo expressivos, sendo iluminado por um extraodinário claro-escuro e caracterizado por fortes combinações cromáticas.
O estilo rococó desenvolveu-se como sucessor do barroco numa ampla gama de manifestações artísticas, entre as quais se incluíam a arquitetura, a música e a literatura, assim como a pintura. Ele enfatizava a leveza, a decoração e o refinamento estilístico. Originando-se em Paris no início do século XVIII, o rococó não demorou a difundir-se para o resto da Europa.
3 - Francisco Alves Mendes Filho, mais conhecido como Chico Mendes, é natural de Xapuri foi seringueiro, sindicalista, ativista ambiental e ultrarrevolucionário pela vida da Terra.




quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Nosso Cânone Literário - Barroco


Espírito Santo
Nestas terras capixabas existem de quase tudo um pouco, barrocas terras, não? Pena que a arquitetura tome partido nulo nisso tudo. Ah!, mas as igrejas até que são bem barroquinhas, ou, como dizem por aqui, vivem embarrocadas. Será que os vocábulos são parentes? Ou barrocos? Num sei, não, seu moço. Sei é que pessoa direita deve é de escutar a igreja, não perguntar. É!, boa mecenas és tu, ó mãe divina.
Pois então, o ouro é das Minas, a cana dos paulistas, a capital em Salvador, O Rio ainda não é lindo, mas é cultural – e pra que resolveu mudar de adjetivo, né? Os holandeses só pra lá de Pernambuco se interessaram, os gaúchos têm uma crista... Mas, idaí? E a gente? Capixaba é assim mesmo, seu moço! Todo mundo vem, todo mundo é. O jeito é continuar a cantar a vida nas falas. Sabe que não tem pra onde correr. Vão bora pro mar? Lusofobia!
Mas, quer melhor terra pra viver que essa? Faz o que quiser, pro lado que tiver. Vai pra Europa, vai pro Rio; dorme na Bahia, acorda nas Minas; esconde em São Paulo; avizinha-se aos Gaúchos. E o Norte? Lá é terra de romântico, bem indianista. E aqui, é terra de quê? Do povo brasileiro. Barroco, mas não rococó, porque capixaba não nasce pra exagero; capixaba nasce pra ser do meio.
Ô terrinha mais ou menos, hein, seu moço? É terra boa, meu amigo! Terra que lhe dá escolha. É terra barroca. Sabe, agora já vou indo, seu moço. Vou voltar pro meu Sertão. É que lá não tem fronteira, mas tem uma visão... Pode deixar que não fico sozinho, Paraíba. Há sempre alguém chegando nessas terras que Deus quis assim e o homem chamou Espírito Santo. Sozinho nunca, esquecido até quando?
Rodrigo Davel, setembro de 2012

Pintura barroca de Rubens: o diálogo entre a igreja católica e os fiéis

Barroco Brasileiro
Histórico
O estilo barroco chega ao Brasil pelas mãos dos colonizadores, sobretudo portugueses, leigos e religiosos. Seu desenvolvimento pleno se dá no século XVIII, 100 anos após o surgimento do Barroco na Europa, estendendo-se até as duas primeiras décadas do século XIX. Como estilo, constitui um amálgama de diversas tendências barrocas, tanto portuguesas quanto francesas, italianas e espanholas. Tal mistura é acentuada nas oficinas laicas, multiplicadas no decorrer do século, em que mestres portugueses se unem aos filhos de europeus nascidos no Brasil e seus descendentes caboclos e mulatos para realizar algumas das mais belas obras do Barroco brasileiro. Pode-se dizer que o amálgama de elementos populares e eruditos produzido nas confrarias artesanais ajuda a rejuvenescer entre nós diversos estilos, ressuscitando, por exemplo, formas do gótico tardio alemão na obra de Aleijadinho (1730-1814). O movimento atinge o auge artístico a partir de 1760, principalmente com a variação rococó do barroco mineiro.
Durante o século XVII a Igreja teve um importante papel como mecenas na arte colonial. As diversas ordens religiosas (beneditinos, carmelitas, franciscanos e jesuítas) que se instalam no Brasil desde meados do século XVI desenvolvem uma arquitetura religiosa sóbria e muitas vezes monumental, com fachadas e plantas retilíneas de grande simplicidade ornamental, bem ao gosto maneirista europeu. É somente quando as associações leigas (confrarias, irmandades e ordens terceiras) tomam a dianteira no patrocínio da produção artística no século XVIII, momento em que as ordens religiosas veem seu poder enfraquecido, que o Barroco se frutifica em escolas regionais, sobretudo no Nordeste e Sudeste do país. Contudo a primeira manifestação de traços barrocos, se bem que misturado ao estilo gótico e românico, pode ser encontrada na arte missionária dos Sete Povos das Missões na região da Bacia do Prata. Ali se desenvolveu, durante um século e meio, um processo de síntese artística pelas mãos dos índios guaranis com base em modelos europeus ensinados pelos padres missionários. As construções desses povos foram quase totalmente destruídas. As ruínas mais importantes são as da missão de São Miguel, no Estado do Rio Grande do Sul.
As primeiras manifestações do espírito barroco no resto do país estão presentes em fachadas e frontões, mas principalmente na decoração de algumas igrejas, também em meados do século XVII. A talha barroca dourada em ouro, de estilo português, espalha-se pela Igreja e Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, construída entre 1633 e 1691. Os motivos folheares, a multidão de anjinhos e pássaros, a figura dinâmica da Virgem no retábulo-mor, projetam um ambiente barroco no interior de uma arquitetura clássica. A vegetação barroca é introduzida na Bahia no fim do séc. XVII na decoração, por exemplo, da antiga Igreja dos Jesuítas, atual Igreja Catedral Basílica, cuja construção da capela-mor, com seus cachos de uva, pássaros, flores tropicais e anjos-meninos, data de 1665-1670. No Recife destaca-se a chamada Capela Dourada ou Capela dos Noviços da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, idealizada no apogeu econômico de Pernambuco, em 1696, e finalizada em 1724.
Entre os anos de 1700 e 1730 uma vegetação de pedra esculpida tende a se espalhar nas fachadas, como imitação dos retábulos, seguindo a lógica da ornamentação barroca. Em 1703 o dinamismo conquista o exterior pela primeira vez de forma ostensiva na fachada em estilo plateresco da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, em Salvador. No entanto, vale notar que tal exuberância representa uma exceção no Barroco brasileiro, pois mesmo em seu período áureo as igrejas barrocas nacionais, tal como as portuguesas, são marcadas por um contraste entre a relativa simplicidade de seus exteriores e as ricas decorações interiores, simbolizando dessa forma a virtude do recolhimento, requisito necessário à alma cristã. Esses primeiros 30 anos marcam a difusão no Brasil do estilo "nacional português", sem grandes variações nas diversas regiões .
Surge então um novo ciclo de desenvolvimento do Barroco entre meados de 1730 e 1760, com predominância do estilo português "joanino", cuja origem remonta ao Barroco romano. Há uma significativa barroquização da arquitetura com a construção de naves poligonais e plantas em elipses entrelaçadas. Destaca-se no período, com ressonâncias posteriores, a atuação dos artistas portugueses Manuel de Brito e Francisco Xavier de Brito.
Nota-se que, em meados do século XVIII, a perda da força econômica e política inicia um período de certa estagnação no Nordeste, com exceção de Pernambuco, que conhece o estilo rococó na segunda metade do século. O foco volta-se para o Rio de Janeiro, transformada em capital da colônia em 1763, e a região de Minas Gerais, desenvolvida à custa da descoberta de minas de ouro (1695) e diamante (1730). Não por acaso, dois dos maiores artistas barrocos brasileiros trabalham exatamente nesse período: Mestre Valentim (1745-1813), no Rio de Janeiro, e o Aleijadinho, em Ouro Preto e adjacências.
É na suavidade do estilo rococó mineiro (a partir de 1760) que se encontra a expressão mais original do Barroco brasileiro. A extrema religiosidade popular, sob o patrocínio exclusivo das associações laicas, se expressa em um espírito contido e elegante, gerando templos harmônicos e dinâmicos de arquitetura em planos circulares, com graciosa decoração em pedra-sabão. As construções monumentais são definitivamente substituídas por templos intimistas de dimensões singelas e decoração requintada, mais apropriados à espiritualidade e às condições materiais do povo da região.
Um dos exemplos mais bem-acabados desse estilo pode ser contemplado na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Penitência (1767), cujo risco, frontispício, retábulos laterais e do altar-mor, púlpitos e lavabo são de autoria de Aleijadinho. A pintura ilusionista do teto da nave (1802) é de um dos mais talentosos pintores barrocos, Manoel da Costa Athaide (1762-1830). Destaca-se ainda a parceria dos dois artistas nas esculturas de madeira policromada (1796-1799) representando os Passos da Paixão de Cristo para o Santuário do Bom Jesus dos Matozinhos, em Congonhas do Campo. No adro desse santuário, Aleijadinho deixa o testemunho mais eloquente de seu talento artístico: seus 12 Profetas de pedra-sabão (1800-1805).
No Rio de Janeiro a presença lusitana se faz sentir mais fortemente. Distingue-se das outras cidades pela tendência à sobriedade neoclássica, reforçada pelas influências no Brasil da reforma pombalina. Na arte civil (por exemplo: Passeio Público, de 1779-1785 e Chafariz da Pirâmide, de 1789) e sacra de Mestre Valentim o perfeito equilíbrio entre os postulados racionais do Classicismo, a dinâmica e grandiloquência do Barroco e um certo sentido de preciosismo e delicadeza da estética rococó, sintetiza brilhantemente o espírito da arte carioca da segunda metade do século XVIII.



segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Nosso Cânone Literário - Quinhentismo


Quinhentismo
Quinhentismo é a denominação genérica de todas as manifestações literárias ocorridas no Brasil durante o século XVI, no momento em que a cultura europeia foi introduzida no país. Note que, nesse período, ainda não se trata de literatura genuinamente brasileira, a qual revele visão do homem brasileiro. Trata-se de uma literatura ocorrida no Brasil, ligada ao Brasil, mas que denota a visão, as ambições e as intenções do homem europeu mercantilista em busca de novas terras e riquezas. As manifestações ocorridas se prenderam, basicamente, à descrição da terra e do índio, ou a textos escritos pelos viajantes, jesuítas e missionários que aqui estiveram.

Carta ao Leitor, Rei de minha escrita, sobre nosso início literário
Caro Leitor, não começamos bem! A julgar pela visão baseada na alteridade europeia. Somos, ou éramos, frutos da terra, não a mãe gentil – posteriormente impregnada em nossas raízes por transfusão sanguínea forçada. É bem verdade, tenho que assumir, pois a verdade é meu norte para este relato, que de literário não tínhamos nada. Mas, mesmo assim, ainda me pergunto, será? Afinal, o que é literatura (?) senão manifestação artística, que tem por finalidade recriar a realidade a partir da visão de determinado autor (o artista), com base em seus sentimentos, seus pontos de vista e suas técnicas narrativas (Nicola, 1998). E se ‘isso’ é mesmo a literatura, nossos índios – como fomos batizados sem prévio conhecimento – possuíam, sim, literatura na epiderme de sua pele, e em sua cultura. Todavia, não cabe a mim, agora, questionar o valor literário das manifestações culturais de nossos antepassados quinhentistas; tenho o dever, apenas, de relatar nossa visão contemporânea acerca do nascimento de nossa veia literária.
Demonstro, inicialmente, o retrocesso imposto na cultura, desta terra recém-achada/descoberta/tomada, pela literatura e sua visão teocêntrica europeia, já em divergências reformativas da igreja. Em um mundo desconhecido, utopia de Éden, onde Maísa tinha muito valor e de Cristo não se ouvia falar, portugueses sedentos por sabores apimentados e aromas fortes de cravo e canela, made in Índia, desembarcaram e não quiseram mais voltar. Pra lá dos 220 volts foi o choque cultural. ‘Que saradas, avermelhadas e cheirosas índias. Tão diferentes das portuguesas pálidas, gélidas e acorrentadas pela fé romana’. Sim!, Este foi o provável pensamento másculo do português malicioso, ambicioso e tendencioso. Dos brasis queriam ouro, terra e mulher(es). E assim foi feita nossa primeira propaganda e identidade: selvagem cordial, mulher ideal, terra do bacanal. Se a literatura é a visão do autor recriando a realidade, caminhamos para a promiscuidade a galopes.
Entretanto, se a literatura ao recriar a realidade tem por finalidade intervir, assim fizeram os Jesuítas, posteriormente, dando equilíbrio sexual à nossa literatura, ao nosso construir identitário literário. Porém, a preocupação não ultrapassava as margens da colonização/extração/escravidão. E nossa literatura nasceu feia, sem pai definido e com muitos pretendentes a padrastos - é que a mãe sempre foi muito bonita(!).
Já me aproximo do fim de meu relato, caro Leitor, não que não queira falar mais ou que não necessite, de maneira alguma, pois, as raízes alimentam as flores e frutos – mas isso ainda vai demorar mais de quatro séculos. Porém, o nascimento foi sem pompas, demorou-se mais de 30 anos para o reconhecimento em ‘vias de fato’ da paternidade, e, até lá, a criança não recebeu boa educação; até comia três ou quatro letras do alfabeto. Dizem os Jesuítas, que chegaram após o reconhecimento da paternidade e vieram com o intuito de alfabetizar, que faltavam apenas três: L, R e F (lei, rei e fé). Mas, aposto que também não conhecia o B de brasilidade.
Cumprindo, portanto, o meu dever de servo de El-Rei Leitor de bixudipé, afirmo ser verdade tudo que aqui relato, tendo como testemunhas muitos viajantes de nossa língua e história, e confirmo que a literatura já está em nossas mãos. Assim, peço humildemente, caro Leitor, que esforço seja feito na tentativa de dominarmos por total essa terra de todos nós para que possamos enriquecer nossa família e nossa pátria. Sem medo de estar sob alucinações, encerro meu relato certificando que o descobrimento dessa parte do mundo pode nos fazer grandes e reconhecidamente brilhantes em todo o mundo, que se curva diante de nós, leitores.

 Rodrigo Davel, 06 de agosto de 2012.


João Batista (de La Salle)
Batizai-nos com Machado;
Depois vem Queiroz.
Dai prioridade a Lobato;
O B que falta esta em nós.

Eça, Pessoa e Saramago
Até que são bacanas,
Mas, Alencar, Drummond e Dourado
São nossa nirvana.

Demoramos quase meio século
E só em 22 gritamos a liberdade
Reconheço que teve grande eco
Mas, será que foi de verdade?

Não precisamos nos afrancesar
A Europa é o velho!
Eles que precisam se abrasileirar;
Esqueça todo aquele evangelho!
Rodrigo Davel, agosto de 2012